Quase ao acaso (não há, segundo Freud, acaso no inconsciente) deparei-me em minha biblioteca pessoal com um já lido antigo livro de Paul Auster, “O Inventor da Solidão” (ed. Best-Seller/1997).
Paul Auster é um escritor americano vivo
e também roteirista de cinema bissexto. Autor de vários livros, alguns deles,
inclusive, sucessos editoriais, tais como "Trilogia de Nova York".
Qual o lugar da perda de um pai na vida
de um filho? Inicialmente, provavelmente, será a sensação de um vazio; depois,
estranhamente, haverá de vir dúvidas:
“será que o amei mesmo?’ ‘a quem amei?’
‘ele me amou?” “a quem ele me amou?”. Talvez mais do que a inquietação
da ausência física haja a inquietação da ausência das respostas.
Quem era esse pai que se escondia por
detrás de suas inúmeras máscaras de convencionalismo e obrigações, e que sempre
lhe escapou fugidio pelos meandros miúdos do cotidiano? A imagem edificada
pelos anos de evitação era assim como que um retrato incompleto de uma pessoa,
lembranças de um não-encontro: um pai lacunar.
O pai de Auster ficara órfão ainda na
infância e este vazio que carregara trouxera-lhe um retorno no conhecer do
filho. Um pai e um filho. Duas ausências. Dois estranhos. Um órfão de fato e o
outro psíquico. Um pai cujo amor de seu pai lhe foi tirado aos sete anos e que
assim só soube amar de maneira interrompida. Um filho cujo destino foi ser amado
por um pai que só sabia amar um amor infantil. O filho cresceu. O pai não.
Em seu mergulho na memória a partir da
morte do pai Auster abre seu baú de lembranças com a singela obviedade da
existência: "Num dia há vida... E então, subitamente, acontece a morte'. No cascavilhar do escombros deixados pelo pai
o autor/personagem expõe uma dais mais belas paginas da literatura
contemporânea. O trecho abaixo que o diga por si mesmo:
"Não há nada mais terrível, aprendi então, do que ter de encarar os
objetos de um morto. As coisas são inertes: Têm significado apenas em função da
vida que as utiliza. Quando essa vida acaba, as coisas se transformam, mesmo
que permaneçam as mesmas. Estão lá e no entanto não estão: fantasmas tangíveis,
condenados a sobreviver num mundo a que não mais pertencem. O que se pode pensar,
por exemplo, de um armário cheio de roupas esperando silenciosamente para ser
usadas por um homem que não voltará a abrir a porta? Ou os pacotes de
camisinhas espalhadas pelas gavetas repletas de cuecas e meias? Ou um barbeador
elétrico aguardando no banheiro, ainda cheio de pêlos cortados da última barba?
Ou uma dúzia de tubos vazios de tintura para cebelo, escondidos num sacola de
viagem? - revelando subitamente coisas que não temos vontade de ver, nem desejo
de saber. Há nisso certo sentimentalismo e também uma espécie de horror. Por si
só, os objetos nada significaam, como os utensílio culinários de uma
civilização desaparecida. E no entanto dizem-nos alguma coisa, parados ali não
como objetos mas como resquícios de pensamentos, de consciência, emblemas da
solidão na qual um homem passa a tomar decisões sobre si mesmo, se irá pintar o
cabelo, se irá vestir esta ou aquela camisa, se irá viver, se irá morrer. E a
futilidade de tudo isso quando vem a morte."
Quisera que os pais soubessem disso antes
que o saber não lhes tivesse mais nenhuma valia. Conhecer-se por quem não é, é
perder-se - diz o poeta. Haveria assim a chance em vida do compartilhamento e
do encontro; do pai que se faz conhecer e conhece o filho, e um filho que
conhecido se conhece mais. Não se chegaria, portanto, ao ponto desses tristes
versos de Fernando Pessoa, que abaixo transcrevo, e que não quero para ninguém,
menos ainda para aquele que vejo quando me quando me vejo no espelho:
"Quando
quis tirar a máscara,
Estava
pegada à cara.
Quando
a tirei e me vi ao espelho,
Já
tinha envelhecido.
Estava
bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei
fora a máscara e dormi no vestiário
Como
um cão tolerado pela gerência
Por
ser inofensivo".
Joaquim Cesário de Mello